“GiselleS”: montagem do Balé Teatro Guaíra revisita clássico e aposta alto em figurino e cenário 25/05/2026 - 09:23
Antes de um espetáculo do Balé Teatro Guaíra (BTG) chegar ao palco são meses de trabalho. Desde a escolha de tecidos para os figurinos e materiais para o cenário até o desenvolvimento da dramaturgia e coreografia, são centenas de horas de testes, ensaios e ajustes até o resultado final.
Esse também é o caso de “GiselleS”, novo espetáculo da companhia com participação da Orquestra Sinfônica do Paraná (OSP) e que tem estreia marcada para o dia 13 de junho no Teatro Guaíra, em Curitiba. O processo por trás da criação começou há quase um ano.
Ele tem direção-geral de Luiz Fernando Bongiovanni e dramaturgia de Edson Bueno. A produção reúne cenários de Renato Theobaldo, figurinos de Eduardo Giacomini, iluminação de Lucas Amado e produção de vídeo de Eduardo Ramos, além de música ao vivo executada pela Orquestra Sinfônica do Paraná, sob regência do maestro convidado Gabriel Rhein-Schirato. A direção musical e regência titular da OSP é do maestro Roberto Tibiriçá.
A obra é uma releitura contemporânea de “Giselle”, balé romântico clássico composto por Adolphe Adam sobre um libreto de Jules-Henri Vernoy de Saint-Georges e Théophile Gautier, interpretado pela primeira vez pelo Balé da Ópera Nacional de Paris em 1841.
Bongiovanni e Bueno, que já realizam trabalhos em conjunto há quase duas décadas, começaram a pensar no roteiro de “GiselleS” em meados de 2025. O trabalho com o elenco, por sua vez, começou em março deste ano, logo após a abertura da temporada com o espetáculo “Tempo de Movimento”. Foram realizados testes e audições para os papéis.
Figurinos
A criação dos figurinos de “GiselleS” integra o processo de construção desse novo universo. Assinados por Giacomini e confeccionados pela equipe de costura do Teatro Guaíra, os trajes começaram a ser pensados meses antes dos ensaios em estúdio e passaram por diversas etapas até chegar ao resultado final. “Quando conversei com o Bongiovanni, ele pediu que revisitássemos a tradição, porque ‘Giselle’ carrega toda essa história como balé clássico, mas que trouxéssemos isso para o contemporâneo”, explica Giacomini.
Para isso, o figurinista pesquisou cortes e formas presentes nas montagens clássicas da obra e reinterpretou esses elementos a partir de referências atuais. A ideia foi aproximar visualmente os diferentes grupos sociais retratados na história, mantendo distinções principalmente na escolha dos materiais. “Tanto os camponeses quanto a corte estão no mesmo mundo pensando em linhas e formatos de roupa, mas com uma sofisticação maior de tecidos para a corte e materiais mais simples para os camponeses”, afirma.
A relação entre figurino e cenário também orientou as escolhas visuais da montagem. Como o projeto cenográfico já estava em desenvolvimento quando o trabalho de figurino começou, Giacomini buscou criar uma identidade que dialogasse diretamente com os elementos do cenário, explorando cores planas e linhas marcadas.
Transformar os desenhos em figurinos exige um trabalho intenso da equipe de costura do Teatro Guaíra. Segundo a chefe de costura Rose Matias, a produção começou cerca de três meses antes da estreia, devido à dimensão da montagem. “Temos 22 bailarinos em cena e todos usam vários figurinos. É uma obra grande e complexa”, explica.
A partir dos desenhos do figurinista, a equipe seleciona tecidos que atendam tanto à proposta estética quanto às necessidades da dança. Entre os materiais utilizados estão sedas, crepes, zibelines, algodão cru e brins. Além da aparência visual, cada peça precisa garantir mobilidade aos bailarinos e suportar as rápidas trocas de cena. “Os figurinos são todos forrados e muitos terão zíper para facilitar as trocas rápidas durante o espetáculo”, conta Rose.
Mesmo que muitos detalhes não sejam percebidos à distância pela plateia, o acabamento é tratado com precisão. “A gente sempre faz como se o público estivesse a dois metros de distância”, afirma a costureira.
Cenário
O encontro entre o clássico e contemporâneo em “GiselleS” também se reflete no trabalho de cenografia. “Esse trabalho é singular, é uma experiência absolutamente nova em toda a sua potência estética. A representação do espaço não é feita de uma maneira neoclássica ou com realismo, tem um conceito visual que realmente é contemporâneo no sentido da linguagem”, explica o cenógrafo Renato Theobaldo.
Com mais de 40 anos de trajetória na área, Theobaldo assinou dezenas de cenografia de óperas, projetos expositivos, instalações e espetáculos no Brasil e no exterior, mas conta que sua relação com o Teatro Guaíra é especial. “Conheço quase todos os teatros brasileiros, e eu tenho uma sensação particular com o Guaíra: de competência, de qualidade profissional, mas principalmente de respeito, um afeto que tem ali dentro, que me agrada muito. É um prazer estar lá”, conta.
Clássico
Desde sua fundação, em 1969, o BTG mantém o compromisso de dialogar entre tradição e contemporaneidade, levando a dança a diferentes públicos e territórios. Entre seus marcos históricos, a montagem de “Giselle” na década de 1970 representou um divisor de águas. Sob direção de Hugo Delavalle, o clássico projetou nacionalmente a companhia, com temporadas de grande repercussão e a participação de nomes como Ana Botafogo no papel-título.
Na década de 1980, uma nova montagem reafirmou a força desse repertório na identidade da companhia, com destaque para a interpretação de Eleonora Greca e Jair Moraes. O retorno ao clássico, naquele momento, dialogava com uma fase de expansão artística, marcada também pelo sucesso de “O Grande Circo Místico”, que levou o BTG ao reconhecimento internacional.


























